O conflito que ninguém resolve pode ser o maior desperdício da empresa

Hester M. Wasinger
6 Min Read

92% dos colaboradores relatam atritos e 70% das empresas não faz nada

O silêncio corporativo custa caro. Gestores gastam até 40% do tempo lidando com atritos interpessoais mal resolvidos. O dado, levantado pela consultoria CPP Global, reflete uma realidade que atinge em cheio as operações no Brasil. Uma pesquisa da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-SP) revela que 92% dos profissionais confirmam a presença de conflitos no dia a dia das organizações.

O impacto financeiro é direto. A Amcham Brasil aponta que 75% das empresas enfrentam problemas de gestão gerados por choques entre líderes de diferentes gerações. O dado mais alarmante da mesma pesquisa é a inércia: 70% das companhias não realizam qualquer ação para resolver o problema.

Para médias e grandes empresas, a perda de produtividade e o passivo trabalhista formam um ralo financeiro invisível. Substituir um talento que pediu demissão por desgaste no ambiente de trabalho custa de 50% a 200% do seu salário. Dados de plataformas brasileiras de mediação corporativa mostram que a judicialização desses atritos chega a multiplicar os custos das empresas em até seis vezes.

Flávio Lettieri, professor, especialista em desenvolvimento de lideranças e criador do Método Liderança Sustentável, aponta que o problema central está na omissão. “Líderes inseguros evitam conversas difíceis”, explica. Segundo Lettieri, gestores acreditam, de boa-fé, que o tempo resolve as tensões, mas a realidade prova o oposto. “O atrito não desaparece, ele se transforma em desengajamento, queda de performance e rotatividade”, alerta.

Mais de 15 mil reais por ano por colaborador

Internacionalmente esse custo já é mensurado e aparece nos estudos de mercado. Nos Estados Unidos, o impacto chega a 359 bilhões de dólares anuais em horas pagas. No Reino Unido, a agência Acas calcula perdas de quase 30 bilhões de libras por ano.

Para médias e grandes empresas, o custo de um conflito ultrapassa 3 mil dólares anuais por funcionário apenas em perda de produtividade. “Numa conta rápida é mais de 15 mil reais. E embora sejam realidades diferentes, é certo que empresas perdem dinheiro todos os dias porque seus gestores não sabem conduzir discordâncias de forma construtiva”, analisa Lettieri.

Gerir conflito é uma habilidade que se aprende

A evidência do problema faz com que o mercado de trabalho cobre maturidade emocional dos líderes e equipe, mas raramente ensina o caminho para alcançá-la. Mas gerir conflitos é uma habilidade que se aprende. Como disciplina ela já faz parte do currículo de MBAs renomados. “O currículo acadêmico entrega frameworks, matrizes de negociação e teorias de comunicação não violenta. O aluno sai com a bagagem técnica. No entanto, na segunda-feira de manhã, diante de dois diretores em guerra declarada por orçamento, a teoria frequentemente desmorona”, adianta Lettieri.

Segundo ele, a barreira para resolver um atrito corporativo raramente é técnica. Ela é comportamental. O líder trava porque teme o desgaste, a impopularidade ou a perda de controle da situação.

Saber que o conflito existe e conhecer a teoria para resolvê-lo não elimina o desconforto de se sentar à mesa e mediar a tensão. É por isso que o Método Liderança Sustentável foca na segurança do gestor. O líder precisa estar emocionalmente preparado para atuar no fogo cruzado da operação.

“E investir no preparo da liderança é uma decisão estritamente financeira. O conflito gerenciado impulsiona resultados consistentes. O conflito ignorado corrói a margem de lucro”, resume Lettieri.

O verdadeiro desafio da gestão de conflitos

Para quem vive a pressão de equilibrar resultados e relações no ambiente corporativo, Flávio Lettieri faz um alerta: mais do que uma relação interpessoal – eu com o outro, o conflito é uma experiência intrapessoal – eu comigo mesmo. “O outro pode ser o gatilho da tensão, mas a forma como interpretamos suas atitudes passa pelos nossos valores, crenças e expectativas. Por isso, a gestão de conflitos começa pela capacidade de reconhecer os próprios filtros e emoções”, explica.

Segundo Lettieri, líderes mais preparados entendem que divergências não são necessariamente um problema. Quando existe disposição para compreender a perspectiva do outro, sem a necessidade imediata de provar quem está certo, o conflito deixa de ser uma disputa e passa a ser uma oportunidade de construir soluções melhores.
“O papel do líder não é eliminar os conflitos, mas criar condições para que eles sejam tratados de forma construtiva. Equipes saudáveis não são aquelas onde todos concordam, mas aquelas onde as diferenças podem ser discutidas com respeito, maturidade e foco nos resultados”, conclui Lettieri.

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