Novo Desenrola Brasil expõe fragilidade financeira de empresas e acende alerta sobre risco jurídico do endividamento

Hester M. Wasinger
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Programa lançado pelo Governo Federal promete descontos de até 90% em dívidas bancárias, mas especialistas alertam que renegociação sem planejamento pode aprofundar crises financeiras e jurídicas nas empresas

O lançamento do Novo Desenrola Brasil, anunciado pelo Governo Federal em maio de 2026, reacendeu o debate sobre o avanço do endividamento no país e os impactos financeiros e jurídicos que vêm atingindo empresas de diferentes portes. O programa prevê descontos de até 90% em dívidas bancárias, juros reduzidos e parcelamentos em até quatro anos para pessoas físicas e jurídicas, com adesão diretamente nas instituições financeiras participantes e duração prevista de 90 dias.

A medida surge em um momento delicado da economia brasileira. Dados mais recentes da Serasa Experian apontam que o país encerrou 2025 com mais de 7,3 milhões de empresas inadimplentes, o maior volume da série histórica. Juntas, elas acumulam aproximadamente R$ 170 bilhões em débitos, principalmente relacionados a bancos, financeiras, cartões de crédito e fornecedores.

Ao mesmo tempo, os pedidos de recuperação judicial seguem crescendo no Brasil. Segundo levantamento da própria Serasa, houve aumento superior a 60% nos pedidos registrados em 2025, com forte concentração entre pequenas e médias empresas pressionadas por juros elevados, queda de margem operacional e dificuldade de acesso a crédito saudável.

Para a advogada empresarial Keila Ribeiro Flores, sócia fundadora da KRF Advocacia Empresarial, o cenário atual revela um problema que vai muito além do simples atraso no pagamento de dívidas.

“Muitas empresas continuam operando, faturando e movimentando dinheiro diariamente, mas isso não significa necessariamente saúde financeira. O que vemos hoje são negócios funcionando sob pressão constante, utilizando crédito para sustentar a operação, acumulando parcelamentos e adiando decisões estruturais importantes”, afirma.

Segundo ela, programas de renegociação como o Desenrola podem representar uma oportunidade importante para reorganização financeira, mas também exigem cautela estratégica.

“A renegociação é uma ferramenta relevante, principalmente para empresas que perderam capacidade de organização financeira nos últimos anos. Porém, assumir novos parcelamentos sem analisar a capacidade real de pagamento, fluxo de caixa e riscos jurídicos pode fazer com que a empresa apenas prolongue um colapso financeiro que já está em andamento”, explica.

A especialista destaca que muitos empresários ainda cometem o erro de analisar a saúde financeira do negócio apenas pela movimentação bancária ou volume de vendas.

“Existe uma falsa percepção de estabilidade quando a empresa continua vendendo. Mas o faturamento não significa lucro. Muitas organizações aumentam a receita enquanto reduzem margem, acumulam passivos e ampliam a dependência de crédito. Esse desequilíbrio silencioso é justamente o que leva muitas empresas ao colapso financeiro e, posteriormente, a problemas jurídicos mais complexos”, diz Keila.

O cenário se agravou nos últimos anos com o impacto dos juros altos na economia brasileira. Entre 2023 e 2025, o Brasil manteve uma das maiores taxas reais de juros do mundo, aumentando significativamente o custo do crédito para as empresas.

Dados do Banco Central mostram que milhares de empresas passaram a utilizar linhas de capital de giro para manter despesas operacionais básicas, enquanto o endividamento das famílias também seguiu elevado.

Levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) aponta que mais de 76% das famílias brasileiras encerraram 2025 endividadas, afetando diretamente consumo, inadimplência e atividade econômica.

Para Patrícia Bastazini, contadora e sócia proprietária da Bastazini Contabilidade, o problema muitas vezes começa antes mesmo da dívida.

“Muitas empresas não possuem acompanhamento estratégico da própria saúde financeira. Falta controle de fluxo de caixa, análise de margem, planejamento tributário e previsibilidade financeira. Quando a empresa percebe o problema, muitas vezes já está operando no limite”, afirma.

Segundo ela, a renegociação sem reorganização interna tende a gerar novos ciclos de endividamento.
“O parcelamento pode aliviar momentaneamente a pressão financeira, mas sozinho não resolve uma operação desorganizada. É necessário revisar custos, capacidade de pagamento, contratos, estrutura tributária e estratégia financeira para evitar que o problema reapareça poucos meses depois”, explica.

Keila Ribeiro Flores destaca ainda que o aumento do endividamento empresarial também eleva riscos jurídicos relacionados a contratos, fornecedores, inadimplência, execuções e recuperação judicial.

“Muitas empresas chegam ao escritório já em estágio avançado de desgaste financeiro e jurídico. O ideal é que exista uma atuação preventiva, antes do comprometimento total da operação. Hoje, planejamento financeiro e segurança jurídica caminham juntos”, finaliza.

Em meio ao avanço das renegociações e programas de parcelamento, especialistas afirmam que o Novo Desenrola Brasil também pode funcionar como um alerta para que empresas revisem não apenas suas dívidas, mas principalmente a forma como estruturam sua gestão financeira, jurídica e estratégica.

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