Depois da maternidade, a imagem muda, e a maioria das mulheres não foi preparada para isso

Hester M. Wasinger
5 Min Read

Alterações no corpo, na rotina e na identidade impactam a forma como a mulher se vê; especialistas apontam que alinhar imagem à nova fase melhora autoestima, reduz compras impulsivas e facilita o dia a dia.

A maternidade costuma reorganizar prioridades de forma radical. O que raramente entra na conversa é o impacto dessa transição na relação com a própria imagem. Entre o pós-parto, a volta ao trabalho e a nova dinâmica de tempo, muitas mulheres passam a relatar uma sensação recorrente: o armário não acompanha mais quem elas se tornaram.

Há evidência de que essa percepção não é isolada. Revisões publicadas pela American Psychological Association indicam que mudanças corporais e de rotina no pós-parto estão associadas a variações na autoestima e na autopercepção. No Brasil, estudos da Fundação Oswaldo Cruz sobre saúde mental materna mostram aumento de sintomas de ansiedade e autocrítica nesse período. Na prática, isso se traduz em dificuldade de se reconhecer, inclusive na forma de se vestir.

“Não é falta de cuidado. É falta de referência”, diz Juliane Nascimento, consultora de imagem e empresária à frente da Laleju Store (https://www.lalejustore.com.br). “A mulher muda de fase, mas continua tentando vestir a versão anterior de si mesma. O desconforto vem daí.”

O armário como indicador (e não solução)

No varejo de moda, o acúmulo de peças não garante funcionalidade. Relatórios da McKinsey & Company sobre comportamento de consumo apontam que decisões de compra são frequentemente influenciadas por emoção e contexto, especialmente em categorias ligadas à imagem. Já levantamentos da Global Fashion Agenda indicam crescimento contínuo da produção de vestuário nas últimas décadas, enquanto a taxa de uso por peça diminui.
O resultado aparece no cotidiano: armários cheios e pouca identificação. “A cliente compra buscando resolver um incômodo — cansaço, comparação, urgência. Só que, sem clareza de identidade e rotina, a peça entra no armário e não se conecta com o resto”, afirma Juliane.

Caso real: quando o ajuste é de fase, não de tendência

Em atendimento recente, uma cliente, mãe de primeira viagem, retomando o trabalho , relatava que “não tinha mais estilo”. O guarda-roupa estava completo, mas nada funcionava para a nova rotina: amamentação, deslocamentos rápidos, reuniões híbridas.

O diagnóstico não apontou “falta de peças”, e sim desalinhamento. Foram feitos ajustes pontuais: tecidos mais práticos, modelagens que acomodassem o corpo atual sem abrir mão de estrutura, e uma paleta de cores que facilitasse combinações no dia a dia.

“Em poucas semanas, ela reduziu o tempo de escolha, parou de comprar por impulso e voltou a se sentir segura em reuniões. Não houve ‘antes e depois’ dramático. Houve coerência”, diz Juliane.

Autoestima, tempo e decisão

A relação entre imagem e autoestima não é linear, mas é prática. Quando a escolha de roupa exige menos energia, porque as peças conversam entre si, o dia começa com menos atrito. Isso impacta a postura, presença e até disposição para exposição profissional.

“Moda, nesse contexto, deixa de ser cobrança e vira ferramenta. A pergunta deixa de ser ‘o que está na moda’ e passa a ser ‘o que funciona para a minha vida hoje’”, afirma.

O que muda na prática

Ajustar a imagem à fase atual não significa abandonar identidade, e sim atualizá-la. Na Laleju Store, Juliane observa três efeitos recorrentes após esse alinhamento:

1. Menos compra por impulso — a cliente passa a reconhecer o que não faz sentido.
2. Mais combinações possíveis — peças com função clara e interoperáveis.
3. Mais segurança — redução do tempo de decisão e da sensação de inadequação.

“Não é sobre voltar ao corpo de antes. É sobre sustentar quem você é agora”, resume.

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