Brasil-Alemanha 2026: por que este é o ano mais importante da relação bilateral em uma geração

Hester M. Wasinger
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Com o acordo Mercosul-UE assinado, o Brasil como País Parceiro da Hannover Messe e exportações em nível recorde, o país chega a 2026 com mais ativos na mesa do que em qualquer momento das últimas décadas. A questão não é mais se a janela está aberta — é o que fazemos enquanto ela ainda está

Por Felipe Fogaça de Souza Fundador da NexoExport · Frankfurt am Main, abril de 2026

Toda geração tem um ou dois momentos em que as condições se alinham de forma rara. Para a relação Brasil-Alemanha, 2026 é esse momento. Três eventos, cada um significativo por si só, convergem no mesmo ano: o Brasil estreia como País Parceiro da Hannover Messe — a maior feira industrial do mundo —, o acordo Mercosul-União Europeia é finalmente assinado após mais de duas décadas de negociações, e o comércio exterior brasileiro fecha 2025 com exportações recordes de US$ 348,7 bilhões, superando pela primeira vez o patamar estabelecido em 2023.

Moro e trabalho em Frankfurt há anos. Acompanho essa relação bilateral de dentro, num nível que vai além dos comunicados oficiais. E o que vejo agora é algo diferente do que vi nos últimos anos: uma disposição real, de ambos os lados, de levar essa parceria a um patamar estruturalmente diferente. O que ainda falta — e é onde reside o risco — é clareza e urgência sobre o que fazer com isso.

O acordo Mercosul-UE: o que muda na prática

O Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia, finalizado em dezembro de 2024 e assinado no início de 2026, é o maior acordo de livre comércio em termos populacionais da história recente: 718 milhões de pessoas, PIB combinado de US$ 22,4 trilhões. A União Europeia eliminará tarifas sobre 95% dos bens importados do Mercosul em até 12 anos; o Mercosul, por sua vez, abrirá 91% de sua pauta em até 15 anos. Para o corredor Brasil-Alemanha especificamente, o impacto é direto. A Alemanha é o maior parceiro comercial e o principal destino de investimento estrangeiro direto europeu no Brasil. Com o acordo em vigor, produtos brasileiros de maior valor agregado — máquinas, equipamentos, componentes industriais — passam a competir em condições tarifárias muito mais favoráveis num mercado de 450 milhões de consumidores de alta renda.

Para o corredor Brasil-Alemanha especificamente, o impacto é direto. A Alemanha é o maior parceiro comercial e o principal destino de investimento estrangeiro direto europeu no Brasil. Com o acordo em vigor, produtos brasileiros de maior valor agregado — máquinas, equipamentos, componentes industriais — passam a competir em condições tarifárias muito mais favoráveis num mercado de 450 milhões de consumidores de alta renda.

Mas acordos comerciais não geram fluxo por si sós. Geram condições. O fluxo depende de empresas preparadas para aproveitar as condições — e de pessoas com presença nos dois lados capazes de conectar o que existe com o que é demandado.

O que a Hannover Messe representa além do protocolo

O status de País Parceiro da Hannover Messe não é protocolar. É a maior vitrine que uma nação pode ter no ecossistema industrial global: presença destacada no maior evento do setor, acesso privilegiado à agenda política e empresarial paralela à feira e — talvez mais importante — o sinal que isso envia ao Mittelstand alemão sobre a seriedade da intenção brasileira.

O Mittelstand, conjunto de médias empresas familiares que movimenta a espinha dorsal da economia alemã, raramente aparece nas manchetes. Mas é onde as decisões de fornecimento de longo prazo são tomadas. Diferente das grandes corporações, que operam por licitação e procurement centralizado, as médias empresas alemãs decidem com base em relacionamento e confiança — e a Hannover Messe é onde esse relacionamento começa.

"A Alemanha não está procurando o Brasil por simpatia. Está procurando porque a China ficou cara, a Rússia ficou inviável, e o Brasil tem o que a Europa vai precisar nas próximas décadas. Essa é a janela. Ela não fica aberta para sempre." — Felipe Fogaça de Souza, Frankfurt am Main

A reconfiguração geopolítica que coloca o Brasil no centro do tabuleiro

Durante anos, a estratégia industrial alemã se apoiou num triângulo que parecia estável: energia barata da Rússia, manufatura barata da China, mercado consumidor americano. Os três pilares ruíram num intervalo de três anos. O que restou foi a necessidade urgente de reconstruir cadeias de fornecimento sobre bases mais diversificadas.

Ao mesmo tempo, em 2025, as tarifas impostas pelo governo Trump sobre produtos brasileiros — chegando a 50% sobre aço, café e calçados — forçaram o Brasil a diversificar destinos com uma velocidade que a diplomacia comercial levaria anos para induzir. As exportações brasileiras para os EUA recuaram 6,6% no ano, mas a balança comercial total fechou com superávit de US$ 68,3 bilhões e corrente de comércio de US$ 629,1 bilhões. A resiliência foi real.

Esse episódio tem uma leitura importante para o corredor europeu: o Brasil provou que consegue redirecionar fluxos comerciais quando tem incentivo para isso. E a Europa, que viu a concentração brasileira no mercado chinês se aprofundar (o comércio BrasilChina bateu recorde de US$ 170 bilhões em 2025, mais que o dobro do fluxo com os EUA), tem interesse direto em se tornar um destino mais atrativo — com regras mais previsíveis e de longo prazo do que qualquer tarifa unilateral pode oferecer.

O problema estrutural que o Brasil ainda não resolveu

Há, no entanto, um número que precisa ser encarado com honestidade: 66% das exportações brasileiras em 2025 foram produtos básicos — commodities agrícolas e minerais. Soja, minério de ferro, petróleo, carne. O Brasil exporta volume e exporta bem. Mas exporta, em sua maior parte, o que a natureza produziu, não o que a indústria transformou.

Para o parceiro alemão, isso importa de duas formas. A primeira é prática: o Mittelstand não compra commodities — compra componentes, soluções, serviços especializados. O mercado que a Alemanha pode oferecer ao Brasil de maior valor agregado ainda está, em grande medida, inexplorado porque o Brasil não chegou até lá com o produto certo.

A segunda é regulatória: a União Europeia está implementando barreiras não tarifárias crescentes baseadas em rastreabilidade ambiental, pegada de carbono e certificação de cadeia produtiva. Produtos que não conseguirem comprovar origem sustentável encontrarão portas fechadas — não por tarifa, mas por regulação. Esse é o próximo campo de batalha comercial, e o Brasil precisa chegar preparado.

Nova Indústria Brasil e a sintonia com a demanda alemã

A Nova Indústria Brasil — política industrial do governo federal com foco em bioeconomia, transição energética, agro de precisão, saúde e infraestrutura digital — representa a primeira sinalização coerente, em muito tempo, de onde o país quer construir capacidade produtiva de alto valor agregado.

Não por coincidência, essas são exatamente as áreas onde a demanda alemã por parceiros externos é mais aguda. A Alemanha precisa descarbonizar sua indústria e não tem território nem recursos para gerar a energia verde que isso exige. Precisa de insumos para baterias de próxima geração — lítio, grafita, terras raras. Precisa de proteínas alternativas para a transição alimentar. E precisa de parceiros que consigam entregar em escala, com previsibilidade e com certificação reconhecida.

A Nova Indústria Brasil, se executada com consistência, é uma resposta direta a essa demanda. O desafio, como sempre no Brasil, é a distância entre o anúncio da política e sua execução no nível da empresa. É nesse hiato que as oportunidades se perdem.

O que as empresas brasileiras ainda erram na Alemanha

Tenho acompanhado de perto o ciclo de frustração que se repete toda vez que uma delegação brasileira passa pela Alemanha. As empresas chegam bem preparadas em termos de produto. Chegam mal preparadas em termos de processo.

O primeiro erro é tratar a Alemanha como um mercado de transação, quando ela é um mercado de relacionamento. O Mittelstand não compra de quem aparece uma vez por ano na feira e some. Uma reunião na Hannover Messe é o começo de uma conversa que pode durar dois anos antes de gerar um contrato. Empresas que não têm estrutura para sustentar esse ciclo perdem o investimento da viagem.

O segundo erro é de registro. O estilo brasileiro de apresentação comercial — mais entusiasmado, mais relacional, mais orientado ao relacionamento pessoal imediato — pode ser lido pelo interlocutor alemão como falta de substância técnica. A mesma empresa, com o mesmo produto, apresentada de formas diferentes, gera resultados completamente diferentes nesse mercado.

O terceiro erro é a ausência de follow-up estruturado. O contato feito na feira precisa ser retomado em dias, em alemão, com proposta técnica clara e cronograma realista. Esse passo, aparentemente óbvio, é onde a maioria das oportunidades se encerra antes de começar.

"O problema raramente é o produto. O produto brasileiro, em muitos setores, é competitivo. O problema é o espaço entre o produto e o contrato assinado — e esse espaço é feito de idioma, cultura, presença local e paciência com um ciclo comercial mais longo do que o brasileiro está acostumado." — Felipe Fogaça de Souza

O que precisa mudar para o Brasil capturar essa janela

A oportunidade de 2026 é real e documentada. Com exportações projetadas em US$ 364 bilhões para o ano, acordo Mercosul-UE em vigor e o holofote da Hannover Messe, o Brasil nunca teve tantos ativos simultâneos na mesa.

Mas janelas se fecham. E esta, em particular, tem um prazo que não depende só do Brasil: a Alemanha está num processo de reorganização estratégica que vai definir seus parceiros de fornecimento para as próximas duas décadas. Quem não aparecer agora, com consistência e preparo, cede espaço para quem apareceu.

Três coisas precisam acontecer. Primeiro: as empresas brasileiras precisam entender que participar de feiras europeias não é marketing — é entrada de mercado. O stand dura quatro dias. A reputação construída nos meses seguintes é o que converte.

Segundo: o governo precisa conectar a agenda política de alto nível — visitas ministeriais, acordos de cooperação, missões da Apex — com a realidade operacional das PMEs que estão na feira. Sem esse elo, os dois mundos continuam paralelos.

Terceiro: é preciso investir em estruturas permanentes de facilitação comercial. Países que mais avançaram nas relações com a Alemanha — Israel, Coreia do Sul, Japão — construíram pontes humanas: pessoas que conhecem os dois sistemas por dentro e operam como tradutores não só de idioma, mas de lógica de negócios.

Vivo nessa ponte há anos. E o que posso dizer com clareza é que nunca o Brasil esteve tão bem posicionado para cruzá-la. O momento é este. O que fazemos com ele é uma escolha.

Sobre o autor Felipe Fogaça de Souza é fundador da NexoExport, empresa de desenvolvimento de mercado para o corredor Brasil-Alemanha (BDaaS), e do HidroVerde, iniciativa de exportação de hidrogênio verde brasileiro para a Europa. Engenheiro de Produção pelo Mackenzie, Mestre em Finanças pela International School of Management (Frankfurt) com intercâmbio na Oxford Brookes University. Cidadão brasileiro e alemão, vive e trabalha em Frankfurt am Main. Estará presente na Hannover Messe 2026 (22–25 de abril).

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