Existe um tipo de cansaço que férias não resolvem, e a neurociência começa a explicar por quê

Minsk
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Mais de 546 mil brasileiros precisaram se afastar do trabalho por transtornos mentais em 2025. Enquanto ansiedade, burnout e exaustão crescem, especialistas alertam para um fenômeno ainda pouco discutido: o organismo pode permanecer em estado permanente de alerta, impedindo que o corpo realmente se recupere, mesmo durante o descanso.

Mais de meio milhão de brasileiros precisaram se afastar do trabalho por transtornos mentais e comportamentais em 2025, segundo dados da Previdência Social. Ansiedade, depressão e burnout aparecem entre as principais causas desse crescimento, refletindo uma realidade cada vez mais presente na vida de profissionais de diferentes áreas.

Ao mesmo tempo, outra situação tem chamado a atenção de especialistas: pessoas que dormem as horas recomendadas, tiram férias e fazem pausas ao longo do ano, mas continuam acordando cansadas, com dificuldade de concentração, irritabilidade e sensação constante de sobrecarga.

Para a psicóloga, psicanalista e especialista em Neurociência e Comportamento Vanessa Queiroz, esse quadro nem sempre está relacionado apenas ao excesso de trabalho. Em muitos casos, o organismo simplesmente perdeu a capacidade de alternar entre esforço e recuperação.

“Durante muito tempo acreditamos que descansar era apenas interromper o trabalho. Hoje sabemos que a recuperação depende de algo mais profundo: o organismo precisa reconhecer que voltou a um estado de segurança. Quando isso não acontece, a pessoa pode dormir, viajar ou diminuir o ritmo e, ainda assim, continuar fisiologicamente em alerta”, explica.

O cérebro continua trabalhando mesmo quando o expediente termina

Do ponto de vista biológico, o cérebro humano foi programado para responder rapidamente a situações de ameaça. Diante de um perigo, o organismo aumenta a frequência cardíaca, libera hormônios relacionados ao estresse, direciona energia para os músculos e amplia o estado de vigilância.

O problema é que, na vida moderna, as ameaças raramente terminam.

Prazos apertados, excesso de informações, notificações constantes, jornadas prolongadas, preocupações financeiras e responsabilidades acumuladas fazem com que muitas pessoas permaneçam em estado contínuo de ativação.

“Nossa fisiologia responde às pressões psicológicas de maneira muito semelhante à forma como responderia a um risco físico. O organismo permanece preparado para agir, mas perde espaço para recuperar energia”, afirma Vanessa.

Esse estado prolongado pode comprometer funções importantes do cérebro, especialmente aquelas relacionadas ao planejamento, atenção, memória e tomada de decisão. Estudos conduzidos por instituições como Harvard Medical School e Stanford University mostram que o estresse crônico altera o funcionamento de regiões cerebrais responsáveis pelo controle executivo e pela regulação emocional.

Cérebro, coração e intestino funcionam como um único sistema

Nos últimos anos, a neurociência também passou a demonstrar que emoções não são produzidas exclusivamente pelo cérebro.

Antes de um pensamento consciente surgir, o cérebro interpreta milhares de sinais enviados continuamente pelo próprio corpo. Esse processo, conhecido como interocepção, integra informações vindas principalmente do coração, do intestino e do sistema nervoso autônomo.

O intestino participa dessa comunicação por meio do nervo vago e de mecanismos hormonais e imunológicos. Já o coração fornece sinais relacionados ao nível de ativação do organismo, refletidos, por exemplo, na variabilidade da frequência cardíaca.

“O cérebro não trabalha isoladamente. Ele interpreta constantemente os sinais enviados pelo corpo. Quando esses sinais indicam um organismo em estado permanente de alerta, a forma como pensamos, sentimos e decidimos também muda”, explica Vanessa.

Essa integração ajuda a compreender por que períodos prolongados de estresse costumam ser acompanhados por alterações digestivas, dificuldade para dormir, irritabilidade, sensação de exaustão e perda de clareza mental.

Quando esse estado chega às empresas

Embora essa seja uma discussão ligada à saúde individual, seus efeitos também aparecem dentro das organizações.

Segundo Vanessa, empresas costumam investir em processos, tecnologia e desenvolvimento técnico, mas ainda dedicam pouca atenção ao estado interno das pessoas responsáveis por conduzir equipes.

“Liderança não depende apenas de conhecimento. Ela também depende da capacidade de regular o próprio estado interno. Um líder emocionalmente sobrecarregado tende a se comunicar pior, reagir mais rapidamente, mudar prioridades com frequência e ampliar a tensão do ambiente sem perceber.”

Ela lembra que muitos riscos psicossociais surgem justamente no cotidiano das relações de trabalho.

Mudanças constantes de direção, urgência permanente, falta de previsibilidade, comunicação impulsiva e dificuldade para lidar com conflitos criam ambientes emocionalmente inseguros, favorecendo desgaste, perda de engajamento e adoecimento das equipes.

Um exemplo observado por Vanessa ocorreu durante um trabalho realizado em uma clínica da área da saúde. Embora a equipe fosse tecnicamente qualificada, conflitos internos, sensação permanente de urgência e dificuldades de comunicação comprometiam o funcionamento do grupo.

“O problema não estava apenas na carga de trabalho. A liderança também operava sob um estado contínuo de pressão, e isso influenciava todo o ambiente. Quando trabalhamos regulação emocional, clareza nas decisões e previsibilidade da comunicação, a dinâmica da equipe mudou significativamente, mesmo sem grandes alterações na demanda operacional”, relata.

Recuperar-se também é uma competência

Para Vanessa, uma das maiores mudanças dos próximos anos será compreender que saúde mental não depende apenas do indivíduo, mas também da forma como pessoas e organizações aprendem a lidar com pressão.

“O sucesso que construímos precisa caber dentro da nossa capacidade de sustentá-lo. Não fomos feitos para permanecer permanentemente acelerados. Fomos feitos para enfrentar desafios, recuperar energia e seguir em frente. Quando perdemos essa capacidade de recuperação, o corpo continua funcionando por algum tempo, mas cobra um preço cada vez maior.”

Mais do que uma questão de bem-estar, compreender essa dinâmica tornou-se um desafio para empresas, profissionais e lideranças que buscam resultados sustentáveis em um cenário cada vez mais complexo.

Cinco sinais de que seu organismo pode estar funcionando em estado permanente de alerta

• Você acorda cansado mesmo depois de dormir.
• Tem dificuldade para relaxar nos finais de semana ou durante as férias.
• Pequenos problemas parecem maiores do que realmente são.
• Vive com sensação constante de urgência.
• Percebe perda de concentração, clareza ou memória sob pressão.

(Fotos: iStock)

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