Natasha Hoffmann confronta o machismo da indústria musical no novo single “NARRATIVA!”

Hester M. Wasinger
10 Min Read

Cantora e compositora carioca lança faixa nesta sexta-feira, 26 de junho, pela Marã Música, transformando experiências pessoais em um manifesto pop-rock de resistência

Ouça o single

A cantora, compositora e produtora Natasha Hoffmann apresenta ao público seu novo single, “NARRATIVA!”, disponível em todos os aplicativos de música nesta sexta-feira, 26 de junho, pela Marã Música. Com uma sonoridade que transita entre o pop-rock alternativo e elementos eletrônicos contemporâneos, a faixa surge como um manifesto direto contra o machismo ainda presente na indústria musical, transformando experiências pessoais em uma mensagem de enfrentamento e mudança.

“NARRATIVA!” nasceu da necessidade de questionar os padrões desiguais impostos às mulheres no mercado da música. Mais do que falar sobre visibilidade ou reconhecimento, a canção aborda as narrativas misóginas que frequentemente cercam artistas femininas e colocam em dúvida seu talento, sua competência e suas conquistas.

“‘NARRATIVA!’ fala sobre o machismo na indústria musical; especialmente sobre como existe dois pesos e duas medidas quando se trata dessa questão de gênero. Homens têm o direito de entregar um trabalho medíocre e viver sem críticas, enquanto mulheres têm que se esforçar o dobro e ainda vão receber reclamações”, afirma Natasha. “A minha intenção com essa música é justamente mostrar que eu estou mais do que disposta a lutar contra essa narrativa.”

Musicalmente, a artista encontrou inspiração em diferentes gerações de mulheres que ajudaram a moldar o rock e o pop alternativo. As guitarras e a energia da faixa remetem aos primeiros trabalhos do Paramore e ao álbum “Anacrônico”, de Pitty, enquanto influências contemporâneas como Olivia Rodrigo e Sofia Isella ajudam a construir sua identidade atual.

“Para as letras, me inspirei muito no deboche da Rita Lee e de bandas dos anos 90 como Hole e No Doubt. Os anos 90 foram anos incríveis para o rock e para mulheres na música; o movimento Riot Grrrl foi fundamental para muitas das sonoridades que escutamos hoje”, conta a artista.

Ao mesmo tempo, Natasha incorpora texturas eletrônicas e experimentais que ampliam a intensidade da canção. “Para as partes da música que têm uma batida mais eletrônica e experimental, escutei muito Billie Eilish e Doechii”, revela.

O processo de composição foi longo e intenso, refletindo o peso emocional que a temática carrega. Perfeccionista assumida, Natasha transformou um desabafo pessoal em uma canção cuidadosamente construída, capaz de equilibrar força lírica e impacto melódico.

“Eu demorei bastante para finalizar a música. Escrevi um grande desabafo que era uma mistura de raiva e exaustão, uma mulher completamente de saco cheio, e peguei as frases mais interessantes dali”, relembra. “Depois fui escrevendo mais, editando algumas coisas e testando vários arranjos para criar uma melodia que fosse tão potente quanto a letra.”

A inspiração para “NARRATIVA!” vem de situações reais vividas pela artista ao longo de sua trajetória. Formada em composição e produção musical, Natasha relata ter enfrentado episódios recorrentes de desvalorização profissional e comentários que ignoravam sua capacidade criativa por ser mulher.

“Essa música vem de um lugar de frustração, raiva e cansaço. Eu já tive que lidar com vários homens no meio da música que me diminuíram por ser mulher, ignoraram minhas opiniões e fingiam estar interessados nas minhas músicas quando, na verdade, tinham outras intenções”, diz.

Um dos versos mais marcantes da faixa foi inspirado diretamente por experiências dentro do ambiente musical. “No começo da música eu canto: ‘As opiniões que você tanto tem são sobre músicas que quem escreveu? Eu! Então fala com respeito quando usa o meu nome’. Essa parte foi inspirada 100% na vida real. Lembro de estar em uma banda em 2023 e ouvir vários homens debatendo qual arranjo encaixava melhor em uma música que eu tinha escrito e produzido, ignorando totalmente o fato de eu já ter feito um arranjo.”

Outro episódio decisivo aconteceu em 2024, quando Natasha publicou um vídeo de uma apresentação ao vivo e passou a receber comentários ofensivos focados em sua aparência, e não em sua música.

“Recebi comentários me chamando de p***, perguntando se eu vendia fotos ou vídeos pelada, além de homens com o triplo da minha idade fazendo comentários totalmente nojentos”, relembra. “Escrevi essa música pensando em todas essas situações e em como está mais do que na hora de mudarmos essa narrativa.”

Com uma trajetória marcada pela honestidade de suas composições, Natasha Hoffmann vem consolidando seu espaço dentro da cena pop-rock alternativa brasileira. Natural do Rio de Janeiro, iniciou sua formação musical ainda na infância, estudando piano, canto e musicalização. Aos dezoito anos, mudou-se para Los Angeles, onde se formou em composição e produção musical e realizou apresentações em espaços icônicos da cena local, como o The Mint, em West Hollywood.

De volta ao Brasil, lançou em 2025 o EP “amor é um cão do inferno”, produzido ao lado de Raphael Dieguez (Letrux, Marcelo Falcão), acompanhado por um curta-metragem que conecta visualmente todas as faixas do projeto. Em seus shows, a artista combina intensidade e vulnerabilidade, apresentando músicas autorais que acumulam milhares de reproduções nas plataformas digitais, como “as the world was ending” e “eu não sinto ciúmes”.

Agora, com “NARRATIVA!”, Natasha transforma experiências pessoais em um grito coletivo, reafirmando seu compromisso artístico com a autenticidade e a mudança.

“Essa música nasceu da raiva, mas também da vontade de transformar as coisas. Está mais do que na hora de mudarmos essa narrativa.”

CONFIRA A LETRA DE “NARRATIVA!”:

 

Ditadora, esnobe

Uma filha da puta

Ela quer e ela cobra

E ela não pede desculpa!

 

As opiniões que você tanto tem

São sobre músicas que quem escreveu? Eu!

Então fala com respeito

Quando usa o meu nome

Se tem coisa que eu odeio

É opinião de homem

 

Trinta anos e agindo

Como se tivesse sete

Não durava nessa indústria

Se tivesse na minha pele

Se não gosta que quem manda aqui sou eu

Acorda pra vida, conserta a postura

Só não mexe com o que é meu

 

(roqueiro radical tem que

ter culhão meu

A loba

Tem que respeitar

ah, vai se fuder sabe)

 

Não dá pra vencer

Se eu sou apelativa

E ele sem camisa é tão artista!

Eu não sou de desistir

Cê ainda vai me ver

Controlar a narrativa

 

Ah, ah, ah, ah, ah

Ela é muito vitimista

Ah, ah, ah, ah, ah

Tão anti realista

 

E é claro que sempre tem

Meninas que me chamam de amigas

E são tão sororidade, mas na hora da verdade

É tão cômico quão rápido se vendem, ugh

(O feminismo tá tão em alta recentemente)

 

E como se não bastasse

Todo dia ter que contornar homem

Que quer me fuder— coragem

De achar que meu corpo

É a arte que eu quero vender

 

Você fala tão bonito!

Tão promissor, tão eloquente

Mas essas palavras têm significado?

Ou são promessas vazias de um homem frustrado,

Dobro da minha idade, mas pequeno e mimado?

 

Não dá pra vencer

Se eu sou apelativa

E ele sem camisa é tão artista!

Eu não sou de desistir

Cê ainda vai me ver

Controlar a narrativa

 

Ah, ah, ah, ah, ah

Ala é muito exagerada

Ah, ah, ah, ah, ah

Parece desesperada

 

Se paga por tudo

Não só com dinheiro

Com culpa, com a alma

E nem é exagero

 

O tamanho da saia

É mais relevante

Se a potência da voz

É pequena e gritante

 

A satisfação que eu não devo a ninguém

Não vou deixar usar de desculpa

Pra me enterrar junto aos corpos femininos

Que vocês veem com tanto desdém

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