Cérebro “desliga” com mais facilidade em adultos com TDAH, aponta estudo e muda forma de enxergar o transtorno

Hester M. Wasinger
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Pesquisa revela atividade cerebral semelhante ao sono durante tarefas de atenção e reforça que dificuldade não está ligada à falta de esforço

Um novo estudo publicado no Journal of Neuroscience trouxe evidências que ajudam a explicar um dos principais desafios enfrentados por adultos com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH): a dificuldade de manter o foco por longos períodos. Segundo a pesquisa, o cérebro dessas pessoas pode apresentar, com mais frequência, episódios de atividade semelhantes ao sono, mesmo quando estão acordadas e realizando tarefas que exigem atenção.

A descoberta reforça uma mudança importante na forma como o transtorno é compreendido. Durante anos, o TDAH foi associado à desorganização ou falta de disciplina, mas os achados indicam que há um funcionamento neurológico específico por trás dessas dificuldades.

De acordo com os pesquisadores, adultos com e sem TDAH participaram de testes de atenção contínua. Os resultados mostraram que o grupo com o transtorno apresentou mais episódios de “ondas lentas”, um tipo de atividade cerebral normalmente associada ao sono profundo. Esses momentos foram diretamente ligados a falhas de atenção, aumento de erros, respostas mais lentas e sensação de cansaço mental.

Na prática, isso significa que o cérebro pode “desligar parcialmente” ao longo de tarefas prolongadas.

A psicóloga clínica Anastacia Cristina Macuco Brum Barbosa explica que o estudo ajuda a desmistificar a ideia de que pessoas com TDAH não se esforçam o suficiente. “O que esse estudo mostra é que o cérebro com TDAH não falha por falta de esforço. Ele entra em um estado semelhante ao sono com mais facilidade”, afirma.

Segundo a especialista, essa sensação é frequentemente relatada pelos pacientes. “Na prática, essas pessoas até tentam manter o foco, mas sentem como se o cérebro ‘desligasse’ no meio da tarefa. Isso não é escolha, é um padrão neurológico”, completa.

Esse funcionamento pode impactar diretamente a vida cotidiana. Dificuldade para concluir tarefas longas, distrações frequentes, lentidão em atividades que exigem concentração e sensação constante de cansaço mental estão entre os desafios mais comuns.

Além das questões práticas, o impacto emocional também merece atenção. “Muitas pessoas com TDAH crescem se sentindo incapazes ou inadequadas, porque interpretam essa dificuldade como falha pessoal. Isso gera um nível alto de autocrítica”, destaca Anastácia.

Diante desse cenário, especialistas reforçam a importância da psicoeducação no tratamento. Entender como o cérebro funciona pode ser um passo fundamental para reduzir a culpa e buscar estratégias mais eficazes no dia a dia. “Quando a pessoa entende que não é falta de esforço, há um alívio muito grande. Ela deixa de se culpar e passa a buscar estratégias mais adequadas ao seu funcionamento”, explica.

O acompanhamento psicológico, aliado a adaptações na rotina, pode fazer diferença significativa. Pausas estratégicas, organização personalizada e controle de estímulos são algumas das ferramentas que ajudam a melhorar o desempenho e a qualidade de vida.

Para a psicóloga, o avanço das pesquisas contribui para uma visão mais empática sobre o transtorno. “Não é sobre falta de capacidade. É sobre aprender a respeitar o funcionamento do próprio cérebro e desenvolver formas mais inteligentes de lidar com ele”, conclui.

Os novos achados reforçam que o TDAH vai além de distração ou desatenção. Trata-se de uma condição com bases neurológicas claras, que exige compreensão, informação e, sobretudo, menos julgamento.

(Foto: Divulgação)

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